sexta-feira, 10 de maio de 2019

AULA INTRODUTÓRIA
Um breve relato do primeiro encontro entre mademoiselle Chanel e o perfumista François Coty, para acertar detalhes da criação do Eau de Chanel... O futuro Chanel Nº 5.
"Perdão por tê-la feito esperar”, cumprimentou François Coty, levando as mãos dela aos lábios.
Gabrielle já o encontrara em ocasiões de negócios e o chamava secretamente de Napoléon. O nome não se referia apenas ao poderio de Coty: ele era mesmo originário da Córsega e corria a lenda de que tinha parentesco com a família Bonaparte. Igual ao imperador, Coty tinha baixa estatura, fama de mulherengo e de ser dado à ostentação. Corria o boato de que guardava um punhado de diamantes no bolso da calça, com os quais brincava feito bolinhas de gude.
“Não exagero ao afirmar que estamos atolados de serviço”, Coty prosseguiu. Ele segurou a mão dela um pouco mais do que a etiqueta sugeria. “Meu fornecedor de frascos não está dando conta dos pedidos. Evidentemente que entregar os cem mil vidrinhos que vendemos todo dia é um desafio, mas não estou disposto a diminuir a produção de perfumes só porque Lalique não consegue acompanhar a demanda das minhas clientes”. Certamente o número não foi citado en passant, mas para deixar claro à visita que ele chefiava um império mundial.
Ele quer impressionar, Gabrielle recordou-se e abriu um sorriso compreensivo. “Claro que sei valorizar o fato de ser recebida mesmo assim”.
“No futuro, vou desenhar e produzir os frascos na casa. Facilitará o processo produtivo. Acabei de ditar uma circular à minha secretária informando meus clientes a respeito. Amanhã será despachada. A senhora é a primeira a saber dos meus planos, mademoiselle Chanel.”
“Sinto-me honrada.”
Ele abriu um sorriso. “Por favor, sente-se.”
Enquanto ela afundava numa poltrona, tomou uma primeira nota mental. Ela tinha que pensar na criação de um belo frasco para o seu perfume, procurar um vidreiro com uma pequena fábrica. As dificuldades que René Lalique estava sujeito ao trabalhar com François Coty não lhe diziam respeito. Gabrielle não pensava em inundar o mercado com o Eau de Chanel. Ela tinha conversado com Boy a respeito de um presente especial de Natal para suas melhores clientes – e disso não passaria. O que significava produzir não mais de cem unidades.
Coty lhe ofereceu um café, que ela aceitou agradecida. Seguiu-se uma troca de amenidades sobre temas relativamente neutros: Coty lamentou a morte do escritor Paul Adam, Gabrielle reclamou do tempo fresco, úmido. Depois ela mudou de assunto e explicou seu caso. O perfumista assentiu com a cabeça, já sabia de alguma coisa por intermédio da esposa, que conversara com Misia. Mas deixou Gabrielle terminar de falar, antes de dizer todo galante: “Será uma honra poder lhe criar um aroma, mademoiselle Chanel. Um trabalho nosso, em conjunto, certamente trará bons frutos.“
“Eis o motivo de eu estar aqui.”
“Meu lema é: ofereça a uma mulher o melhor produto possível, apresentado num frasco lindo, vendido a um preço razoável – o resultado será um mercado de tamanho inédito no mundo.”
“Procuro por um presente para minhas clientes, não por um grande mercado.”
Ao fazer um movimento curto com a mão, ele pareceu desdenhar dessa limitação. “Nada disso é problema. Confie totalmente em mim e...”
“Sem dúvida, monsieur”, ela interrompeu-o com uma voz muito doce. “Devo apenas acrescentar que quero estar envolvida no processo de criação desde o início.”
Ele hesitou. “ O que quer dizer com isso? A senhora não é química, a senhora...”
“Evidentemente...” ela o interrompeu de novo, “evidentemente que vou deixar a parte técnica aos especialistas.” Ela fez uma breve pausa e abriu um sorriso amistoso, para depois continuar: “Mas eu quero acompanhar todos os passos da produção, ser informada também a respeito da fórmula e do acabamento. Isso é muito importante para mim. Esse perfume é algo que me diz muito ao coração.”
“Sempre é, mademoiselle Chanel, sempre é. Se não cheirássemos com o coração, os perfumes não seriam mágicos. A fascinação vem aqui de dentro.” Ele bateu com a mão aberta no peito, “e não aqui de cima” e tocou a testa com o indicador. “Porém, para satisfazer seu desejo, a senhora tem de estar de posse de um requisito fundamental: “como vai seu nariz?”
Inconscientemente, ela tocou o rosto. “Como assim?”
“Vou lhe mostrar.” Ele se levantou, aproximou-se da estante com os frascos de vidro e pegou um com sua mão grande, mais três tubos de ensaio de farmácia. De volta à poltrona, colocou tudo na mesinha junto com as xícaras de café. Em seguida, abriu o frasco e passou-lhe uma vareta de cristal. “O que a senhora sente?”
Ela cheirou. A resposta à pergunta era fácil. Ela reconheceu o inconfundível perfume na hora. “É Chypre.”
“Sim. Meu perfume. A eau de toilette de maior sucesso do mundo. Estava certo que a senhora o reconheceria. Na verdade, estava perguntando pelos aromas.”
“Tem jasmim...” ela murmurou, franzindo a testa. De repente, ela não tinha mais certeza se apenas estava dizendo o que já sabia ou se realmente estava sentindo a doçura passada pelo jasmim. Ela tentou concentrar-se no olfato, mas não conseguiu decifrar os outros ingredientes. “me lembra um pouco o cheiro de talco...” ela se interrompeu para acrescentar: “Algo me lembra de um passeio no campo.”
“Nada mal”, ele elogiou. A senhora foi bem, mademoiselle Chanel. Vai valer a pena educar um pouco seu nariz. A nota de cabeça é realmente o jasmim, e ainda temos patchouli, vetiver, sândalo, bergamota e musgo de carvalho. Essa mistura de essências é o segredo de um perfume moderno. Um perfumista tem à disposição centenas de milhares de possibilidades, encontrar a fórmula correta é sua arte. A senhora deveria saber de tudo isso antes de entrar no processo criativo.”
Coty estava esperando que ela fizesse um curso de química antes de se meter na produção de um eau de Chanel? “Ouvi dizer que a formação do perfumista é muito difícil”, ela reconheceu. Mas nada é difícil demais para não ser ao menos tentado, ela pensou. Coty interrompeu suas lembranças ao pegar a vareta da sua mão e fechar o frasco. Em seguida, tirou a rolha de uma garrafinha marrom. “E isso?”
O penetrante aroma picante e doce era inconfundível.
“Sândalo”, ela exclamou triunfal.
“Exato.” Ele trocou os frascos mais uma vez. “Por favor, tente este.”
Gabrielle tinha imaginado que ele lhe colocaria diante de uma tarefa mais difícil, mas não que... Céus, o que estava acontecendo? De repente seu nariz não cheirava mais nada. Era como se estivesse com um resfriado forte. Ela sentiu um aroma de laranja, muito fraco, mas também podia estar imaginando coisas. Ou será que ele estava tentando confundi-la, oferecendo um produto inodoro? Confusa, ela balançou a cabeça. “ Não faço ideia.”
“Claro que não.”
Ela não sabia se tinha de achar graça ou ficar irritada por estar caminhando sobre gelo fino. Coty estava se fazendo de examinador astuto. Que ridículo de sua parte. Mas ele prosseguiu claramente: “O nariz se fecha depois de no máximo três provas olfativas, no caso de perfumes intensos até antes. Aliás, trata-se de bergamota.” Ele esticou a mão em direção a um pote antigo de porcelana, decorado com ornamentos dourados, e abriu a tampa. Ela achou que ele guardava charutos ali, mas ficou surpresa com o cheiro que sentiu. “Por favor, mademoiselle Chanel, cheire um pouco esses divinos grãos de café. O café neutraliza o olfato.”
Ainda preciso aprender tanto, ela pensou, enquanto seguia a sugestão. O efeito foi surpreendente. Seu nariz estava novamente pronto para entrar em ação. Vou treinar em casa, ela se decidiu em silêncio. Vou aprender a arte dos aromas exatamente como quando me sentei sozinha no cavalo e saí andando. Agora ela queria educar o olfato para guardar esse amor para sempre. Sensual, fresca, eterna – Eau de Chanel deveria ser assim. Gabrielle sorriu, satisfeita. Com sua aula introdutória, Coty contribuiu para uma visão.
Coty continuou testando-a, fazendo com que cheirasse novos aromas a cada vez e lhe recitava nomes de essências cuja existência desconhecia. Ele não usava apenas a denominação corrente como nota de cabeça e nota de corpo, mas também diferenciava entre notas e famílias olfativas. Gabrielle ouvia tudo em silencia e sugava todas as informações. Mais tarde, ele acompanhou-a pela sua fábrica. No caminho até os grandes galpões , ele lhe explicou que as mais valiosas espécies de rosas e de jasmim são originários do sul da França e por essa razão mantinha um local de seleção em Grasse. “Todos os dias, cerca de cem mulheres se ocupam em achar as melhores flores para destilação. O resultado continua a ser processado aqui.”
“E aqui está o laboratório”, Coty abriu uma porta: “observe sua futura área de trabalho, mademoiselle Chanel.” Ele deu uma piscadinha e abriu caminho para que ela entrasse.
Ela observou os homens e suas assistentes com os aventais brancos e se perguntou como os perfumistas e os químicos conseguiam diferenciar, nessa atmosfera, os diversos ingredientes de uma eau de toilette.
Como se tivesse lido seus pensamentos, Coty falou: “Um nariz educado consegue se concentrar num determinado aroma. Mas isso não é sempre necessário. Muitas vezes as de coração são obtidas apenas por fórmulas químicas, de modo que o olfato tem um papel secundário nessa hora. Mas a senhora vai conhecer tudo isso quando começar a estagiar comigo.”
Gabrielle apertou a base do nariz com a ponta dos dedos e, balançando a cabeça, concordou.
(Resumido do livro, Mademoiselle Chanel e o Cheiro do Amor, de Michelle Marly).

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